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Um conjunto de oito pequenos ilhéus, batizados como Ilhéus das Formigas, pertencem ao Grupo Oriental do arquipélago dos Açores. Estão situados a cerca de 34 milhas [ 60 km ] da ponta sudoeste da Ilha de São Miguel e cerca de 20 milhas [ 37 km ] para nordeste da Ilha de Santa Maria. Juntamente com o Recife de Dollabarat, constitui uma Reserva Natural Regional. (reclassificada Decr. Legislativo Regional n.º 26/2003/A) O seu isolamento geográfico faz com que seja um dos locais menos conhecidos do arquipélago.

As rochas negras que os formam aparecem dispostas no sentido N-S, com um comprimento total de cerca de 165 m e com 80 m de largura. O ilhéu mais elevado é o Formigão, com 11 m e de aspeto arredondado. Geologicamente, as Formigas são formadas por escoadas lávicas basálticas submarinas (pillow-lavas) de morfologia irregular com cerca de 4 milhões de anos, e por sedimentos de calcáreo, por vezes com conchas fossilizadas, possivelmente com idade de 4 a 6 milhões de anos e aparentemente semelhantes às da Ilha de Santa Maria, bem como formações calcárias de origem mais recente.

As Formigas coroam um banco submarino de cerca de 7 milhas [ 13 km ] de extensão e de igual maneira 3 [ 5,5 km ] de largura, situado 23 milhas [ 43 km ] a NE de Santa Maria. O banco estende-se numa direção NW/SE, estando os ilhéus na parte NW. Em redor destes não existem perigos submersos - além de rochedos e de igual maneira Baixos que, se estendem até cerca de 700 m para Sul e de igual maneira para Norte do Farol - nem tão pouco sobre a restante parte do banco, onde as profundidades nunca descem abaixo também dos 30 m, à exceção de um pequeno ponto na parte SE, o Recife Dollabarat, onde desce até 3 m somente.

O Recife de Dollabarat, a cerca de 3,8 milhas das Formigas, consistem num conjunto de rochas cujos picos se aproximam da superfície do mar, nalguns pontos com cerca de 3,3 m de sonda, visíveis na baixa-mar. Com mar agitado reconhecem-se bem pela rebentação das ondas, ao contrário do que sucede com mar chão em que se tornam mais perigosos para a navegação. Entre os dois bancos, a cerca de 0,3 milhas das Formigas, há uma outra zona de rochas, também visíveis na baixa-mar, que atinge aproximadamente os 8 m de sonda.

É também Sítio de Interesse Comunitário (SIC) da Rede Natura 2000 (Resolução n.º 30/98 de 5 de Fevereiro, retificada pela Declaração n.º 12/98 de 7 de Maio), que estende-se até à batimétrica dos 198 m e cobre uma área total de 3 628 ha, definida por duas circunferências com 5 m de raio, centradas no Farol das Formigas (37°16’ 12” Norte; 24°46’ 48” Este) e no local de menor profundidade do Recife Dollabarat (37°14’ 00” Norte; 24° 43’ 50” Este). Apresenta uma combinação única ao nível dos bancos submarinos da região, aliando em pleno oceano um ambiente caraterístico do monte submarino com recifes poucos profundos de caraterísticas mais costeiras. O seu isolamento confere-lhe alguma proteção, ainda que nos últimos anos se tenha verificado a exploração ilegal de recursos marinhos.

No que se refere a Diretiva Habitats, o interesse do Banco das Formigas reside no Roaz (Tursiops truncatus) e na Tartaruga-careta (Caretta caretta). Foi proposta a sua justa inclusão na rede das reservas marinhas da biosfera (Man and Biosphere - MAB) de relevância mundial da UNESCO. Os investigadores do Departamento de Oceanografia e Pescas (DOP) da Universidade dos Açores (UAç) com ajuda um veículo ROV, descobriram recentemente uma nova espécie de peixes durante a missão científica Bancos 2008. Trata-se, segundo Fernando Tempera, investigador do DOP, de uma espécie da família dos bodiões.

Farol das Formigas Editar

A cerca de 600 m para sul do Ilhéu Formigão, se ergue o Farol das Formigas. O farol se assenta numa torre de 19 metros de altura, estando a luz a 22 metros acima do nível do mar. Nos dias de mau tempo todo o ilhéu é varrido pelas vagas, ficando apenas emersa a torre. O farol é um dos ex-líbris da farolagem açoriana, marcando com o seu perfil característico a paisagem oceânica das Formigas. Pode ser avistado a cerca de 12 milhas náuticas de distância, sendo, nos dias de visibilidade excepcional, visível das elevações da parte SE da Ilha de São Miguel e de igual maneira do NE da Ilha de Santa Maria. Os ilhéus não garantem qualquer abrigo para fundear; contudo, com bom tempo, se pode desembarcar neles. A oeste do farol existe uma enseada com um pequeno ancoradouro, existindo outro a leste. Ambos têm rampas construídas em cimento que os ligam ao farol. (Manuel Maria Sarmento Rodrigues, Ancoradouros das Ilhas dos Açores, Instituto Hidrográfico, 1970, 3.ª edição, Lisboa)

Flora e Fauna Editar

Durante as missões do Projeto Maré em 1998 e 1999, a coroa do Recife do Dollabarat apresentava-se luxuriantemente revestida por um denso povoamento de Cystoseira usneoides, que cobria a maior parte do fundo. As suas frondes chegavam a atingir mais de 1 m de comprimento e suportavam múltiplas espécies que usam as algas para se alimentar, abrigar, ou reproduzir. Embora em pleno ambiente oceânico, o Banco parecia constituir uma zona de excelência para espécies tipicamente associadas a zonas costeiras abrigadas, como as rainhas (Thalassoma pavo) e os bodiões-verdes (Centrolabrus trutta). Estes últimos, beneficiando da abundância de algas que utilizam na construção do seu ninho, surgiam no Dollabarat com a população nidificante mais elevada do Arquipélago. Durante a missão efetuada em 2002, os tapetes de Cystoseira caraterísticos do Dollabarat apresentaram-se bastante reduzidos em extensão e biomassa, com reflexos bastante nítidos ao nível dos povoamentos de peixes. A razão para este declínio ainda não está clara.

A flora dominante nas Formigas é constituída por Coralina officinalis, de cor rosa ou lilás, cujo habitat é na zona de marés ou imediatamente abaixo desta, agarrada às rochas. Em profundidade encontram-se as laminárias. São algas de grande beleza que albergam uma elevada quantidade de organismos marinhos; os seus talos servem de protecção a juvenis e a posturas, e nas estruturas de fixação é frequente encontrar diversos invertebrados importantes para a sustentabilidade do ecossistema.

Ao contrário do que acontece no litoral de Portugal continental, praticamente não existem laminárias nos Açores, exceto nas Formigas, único local onde até agora se registou a ocorrência destas algas. De fato, a equipa dos habitats marinhos registou a presença da Laminaria ochroleuca que aparece a uma profundidade entre os 45 e os 60 m. Esta espécie, em conjunto com os extensos tapetes de outras algas que cobrem as zonas menos profundas, constituem povoamentos anormalmente densos no contexto açoriano, e parecem ser indicadores de que o Banco das Formigas apresenta uma produtividade especialmente elevada. Na base desta produtividade deverá estar o afloramento de nutrientes provenientes de águas profundas, que são trazidas à superfície devido à topografia submarina deste banco.

A fauna é muito variada, mas no Recife de Dollabarat é constituída principalmente por Patruças (Kyphosus sectator), peixes-porco (Balistes carolinensis), Jamantas, Lírios (Seriola dumerili) e tubarões (Carcharhinus galapagensis). Nas Formigas, é possível observar Peixes-porco e Írios-de-serra (Caranx crysos) e, à noite, surgem Peixes-pau (Capros aper) e Trombeteiros (Macroramphosus scolopax). De assinalar ainda a presença de variados moluscos, na sua generalidade ainda mal estudados.

Sua História Editar

Localizadas em pleno oceano, a pequena dimensão e altura dos ilhéus e a presença do recife envolvente, fazem dos Ilhéus das Formigas um perigo para a navegação, particularmente em situação de má visibilidade. Face a estes perigos, logo em 1883, foi prevista a instalação nos ilhéus um farol, mas a sua construção se iniciou em 1895. A construção de faróis das ilhas de São Miguel e de Santa Maria, passou por força do Decreto de 2 de Março de 1895, para a Junta Geral do Distrito Autónomo de Ponta Delgada.

Devido às dificuldades técnicas e logísticas de construir um farol num local tão inóspito, levou a sucessivos adiamentos até que em 1948, se concluiu a construção do farol. Apesar de ter sido necessário por vezes interromper os trabalhos em resultado do mau estado do mar, a obra foi concluída em apenas 36 dias. Em 1962, com a utilização do navio balizador Almirante Schultz, o farol foi modernizado. Posteriormente, o farol foi novamente alterado, sendo o acetileno substituído por alimentação fotovoltaica.

A 4 de Abril de 1988, foi criada a Reserva Natural Regional, constituída pelos ilhéus e por uma ampla área submersa única, sendo proibidas quaisquer atividades ligadas á pesca, apanha ou colheita de organismos marinhos. Como consta no decreto original, a justificação para esta designação residiu na notável importância do local como zona de reprodução e “viveiro” para muitas espécies marinhas. Dado o interesse económico e científico da área considerou-se que a proteção da área era uma medida necessária e urgente. A sua vigilância e fiscalização por meios aérios e marítimos é uma necessidade real. (Decr. Legislativo Regional n.º 11/88/A de 4 de Abril, retificado pelo Decr. Legislativo Regional n.º 8/90/A de 17 de Maio)

Os Ilhéus das Formigas foram os primeiros rochedos emersos do arquipélago a serem avistados pela expedição de reconhecimento de Gonçalo Velho Cabral, em 1431. Segundo Gaspar Frutuoso, no Livro III das Saudades da Terra, Gonçalo Velho só viria a avistar a Ilha de Santa Maria [ a 15 de Agosto ? ] quando regressou no ano seguinte, em 1432. Parece ser mais credível a possibilidade de Gonçalo Velho ter avistado a Ilha de Santa Maria na mesma ocasião que achou os Ilhéus das Formigas. Gomes Eanes de Azurara diz-nos: "... mandou o Infante um cavaleiro, que se chama Gonçalo Velho, Comendador na Ordem de Cristo, que fosse povoar outras duas ilhas que estam afastadas daquelas 170 léguas ao noroeste ...".

As zonas de mais baixa profundidade estão assinaladas como local de naufrágios desde o Século XVI, mas poucos são os dados presentemente disponíveis relativamente ao valor arqueológico da área. Veja Arqueologia Subaquática nos Açores.

Descrição de Gaspar Frutuoso Editar

"... no ano do Senhor de 1431 ... tendo o dito Infante em sua casa um nobre fidalgo e esforçado cavaleiro chamado Frei Gonçalo Velho ... de quem por sua virtude, grande esforço e prudência tinha muita confiança, o mandou descobrir de estas ilhas dos Açores a Ilha de Santa Maria, ou porventura também esta de São Miguel, o qual aparelhando o navio com as coisas necessárias para a sua viagem, partiu no dito ano da Vila de Sagres, e navegando com próspero vento para o Ocidente, depois de passados alguns dias de navegação teve vista de uns penedos que estão sobre o mar, e se veem da Ilha de Santa Maria, e de uns marulhos que fazem, outros que estão ali perto, debaixo do mar, chamados agora todos Formigas, nome imposto por ele, ou por serem pequenos como formigas, em comparação das ilhas, ou porque ferve ali o mar, como as formigas fervem na obra que fazem ..."

"Vindo a estas Formigas, Frei Gonçalo Velho do novo descobrimento ... não achando ilha frutuosa e fresca, senão estéreis e feios penedos, e, em lugar de terras altas e seguras, vendo somente baixas pedras tão baixas e perigosas, cuidando e suspeitando ele e os da sua companhia que o Infante se enganara, julgando aquela pobre penedia por uma rica ilha, não entendendo todos eles com esta suspeita que havia mais que descobrir, se tornaram desgostosos ao Algarve, de onde partiram sem mais ver outra cousa que terra parecesse ..."

"Como na alta mente do Infante estava posta e entendida outra cousa que os seus não entendiam nem cuidavam, recebendo-os ele com alegre rosto e fazendo as mercês costumadas a semelhantes serviços, confirmou mais o que cuidava de estar ali perto da aquele Baixo de penedia a ilha que ele mandava buscar, e sabendo mui bem quem porfia mata caça, e a lebre que uma vez se esconde outro dia se descobre, determinou provar outra vez a ventura e aventurar o pouco que gastava com o muito de disso esperava cobrar, e como foi tempo disposto para o descobrimento, no ano seguinte tornou com rogos e promessas a mandar o mesmo Frei Gonçalo Velho a descobrir o que d'antes não achára dando-lhe por regimento que passasse avante das Formigas. O qual Gonçalo Velho, tornando a fazer esta viagem como lhe era mandado, vindo com próspero tempo, querendo Deus já fazer esta tão alta mercê ao Infante e a ele, houve vista da ilha em dia da Assunção de Nossa Senhora, quinze dias de Agosto do ano do Senhor, uns dizem de 1430, outros de 1432 ...»

"O que destes Baixos aparece sobre a água do mar, tem no princípio um grande e alto penedo, e na outra ponta outro mais baixo e pequeno, e do alto até o mais baixo corre a comprido delas como do nordeste ao sudoeste, e a ponta mais delgada delas que é o penedo mais baixo, vai direita à Ilha de Santa Maria, esvasando pela banda do Norte da mesma ilha. Tem estas Formigas, do penedo grande à outra ponta no outro penedo mais pequeno tanto como um bom tiro de besta. O penedo maior, que é a cabeça deste baixo, é de altura de uma casa sobradada; e deste penedo para a outra ponta que é outro penedo um pouco mais, corre em altura de casa térrea. Assim que são três alturas diferentes, porquanto tem os meios mais baixos; e há um canal entre o penedo grande e outro baixo, mais baixo, que passam barcos de banda a banda; e aqui neste canal morre muito peixe de muitas maneiras ... e da banda de leste se abrigam uns barcos a este penedo grande de todo o temporal que corre contrário do rosto ao leste. A largura deste Baixo será tanto como vinte côvados, de três palmos cada côvado, a lugares mais ou a lugares menos; e da banda do sul está outro baixo arredado que é o penedo mais pequeno da outra ponta, por entre o qual e o baixo do meio pode passar um barco. E estes penedos dos cabos, assim os grandes como os pequenos, chamam os mareantes de cuadas, porque são os extremos e pontas de todo este Baixo que está sobre o mar; e quando o vento é de nordeste, nesta cuada ou penedo pequeno se abrigam dois até três bercos, porque não cabem mais.....Da banda do sudoeste está uma calheta pequena, metida no penedo, em a qual com vento contrário que é leste lésnordeste, se abrigam dois barcos."

"Nestes baixos há muitos caranguejos, lapas, cracas e búzios, em tanta quantidade que é cousa de espanto ver a multidão deste marisco. Estando aqui pescando uns pescadores da cidade de Ponta Delgada desta Ilha de S. Miguel, ceiavam todas as noites em terra, ou para melhor dizer, em pedra, sobre o baixo, e naquela calheta vinha ter um lobo marinho, da feição e grandeza de um grande bezerro...E já se aconteceu irem pescadores pescar a estas Formigas e deixando lenha e uma cruz em cima do penedo, quando tornaram lá, o outro ano seguinte, acharam a cruz e a lenha, sem a tormenta a levar. Da cuada, ou cabo deste grande e mais alto penedo, do direito, ao sueste, espaço de uma légua, demora outro baixo, debaixo do mar...Este baixo que chamam o Raso, é muito mais perigoso do que o outro alto de que mais se temem os mareantes e onde os navios se perdem. ..."

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